
Eu tinha catorze anos quando uma matéria de cinco folhas saiu na veja sobre “ Pulp Fiction”. Tenho a matéria até hoje dentro de uma lata de biscoito belga. Passei uma semana convencendo o meu avô de que eu poderia ver o filme. Meu avô não ligava para isso. Ele sabia que a censura era dezoito anos e dizia que fazia o mesmo na minha idade, quando freqüentava o Cine Ipiranga. Eu e a Cláudia fomos ver Tarantino. ( Quem era?) Ezequiel, 25; 17. Eu nunca mais fui a mesma. Foi quando eu escrevi o meu primeiro roteiro de cinema na Olivetti. Foi quando eu parei de fazer sentido e comecei a pensar em ser alguma coisa. E então é feriado, você vai no cinema, a fila é grande e você espera a próxima sessão. Uma ansiedade quase infantil, a mesma que vem desde o Chaplin. A mesma das noites insones em frente a TV, o avô roncando e eu no “Corujão”. Diga-se de passagem o “Corujão” era incrível. Vi Hitchcock, Brian de Palma, Ridley Scott, tudo na madrugada. Algumas crianças dormiam. Eu me divertia. “ Inglorious Basterds” é de matar de bom. É aula, é uma outra coisa. Estilo, estética, metafísica, beleza. Sem beleza, não tem cinema. O conteúdo transborda em cada posição de câmera. Tarantino está maduro. Não perde tempo com bobagem, não perde tempo tentando ser amado, tentando imprimir a sua visão. Ele não tenta. Ele é. Seu estilo, suas escolhas são tão precisas, que com quase TRÊS horas, o filme parece enxuto. Uma fantasia necessária, uma humanidade beirando indecente, mas a única que acreditamos. O êxtase é maior do que a própria catarse. Pouco importa a verdade ou a verossimilhança. Na tela é um outro mundo, a cosmogonia de Tarantino é de lascar. Cada porta aberta representa. Tudo o que abre, fecha.Sai do cinema procurando um rumo, tropeçando nos caminhos... O colega Spilberg disse que quando ele viu “ O Poderoso Chefão”, quis desistir de fazer cinema. ( Compramos a caixa da trilogia de Coppola, antes tarde do que nunca. Vejam os comentários da galera. É melhor do que um mestrado.) Pois é, alguns tem essa sensação de “nunca vou conseguir fazer algo tão bom.” É bem provável que ninguém faça algo tão bom. Mas vale a pena continuar tentando. E por favor, tentar fazer sem ouvir a mediocridade de críticos e analistas que não entendem nada do processo. Cinema não é academia. É arte. E artista pode também estar na academia, mas nunca só lá. Artista é aquele que produz. Cinema é na prática. Nunca assisti um filme “ na teoria”, ou vi um quadro “na teoria”, ou vi uma peça “ na teoria”. E podemos ter esperança.Copie dos melhores, quem sabe você não tem uma chance? ( Fazer isso com cautela, como caminho para a sua própria linguagem). A busca de identidade é árdua. O cinema é foda. A vida é dura. “ Bastardos Inglórios” é o filme. Porque não tem aquela ansiedade de ir logo, explicar logo, matar logo, acabar logo, enlatado, babaca. Tudo é com calma. Os atores tem tempo de interpretar os seus personagens e nos dar aquela elevação que tanto precisamos para continuar acreditando na humanidade. E não é na humanidade de nazistas, de judeus ou dos franceses. Nem de vingança estou falando. Estou falando daquela “coisa” que nos arrebata de vez em nunca. Daquela visão. Daquele ponto de vista. Daquela arte que pode manter alguém vivo. ( sem ela já tinha ido embora, sem ela não dá para ficar.) E para irritar os mais sensíveis, aviso que se não gostarem do filme, é porque não entenderam. E viva eu, viva tu, viva o Quentin e o tatu!!!
Escrito por Michelle Ferreira às 11h17
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